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Guerra na Ucrânia e inflação no Brasil devem impactar balanços do 1º trimestre

A temporada de divulgação dos balanços do 1º trimestre de 2022 das empresas da bolsa de valores do Brasil começou na última quarta-feira (20). Com as operações das companhias no período ocorrendo em meio ao cenário da guerra da Ucrânia, analistas ouvidos pelo InvestNews apontam que este deve ser um dos principais fatores que pode impactar os resultados de empresas, além da inflação elevada no Brasil.

Matheus Jaconeli, analista de investimentos da Nova Futura Investimentos, lista que os efeitos da guerra entre Ucrânia e Rússia, com a alta abrupta dos preços do petróleo, do gás natural, dos alimentos e a inflação de modo geral estão entre os principais acontecimentos do primeiro trimestre de 2022 que podem refletir nos resultados das companhias.

Segundo Jaconeli, em meio aos riscos inerentes ao trimestre e pelos números das prévias operacionais que estão sendo divulgadas, a expectativa para os balanços do 1º trimestre é de resultados mistos.

Vitorio Galindo, analista de investimentos e head de análise fundamentalista da Quantzed, avalia que, de forma geral, os resultados das empresas serão bons, especialmente para as companhias expostas às commodities, devido aos reflexos da guerra.

Por outro lado, segundo Galindo, as empresas expostas ao mercado interno devem seguir com resultados pressionados, por causa do avanço da inflação e elevação dos juros no país, exceto as relacionadas aos setores de alta e altíssima renda.

Já Sidney Lima, analista da Top Gain, diz que a expectativa é elevada em relação aos resultados das empresas, tendo em vista a melhora das condições da pandemia e alguns indicadores positivos no Brasil, como a queda recorrente da taxa de desemprego, o aumento arrecadação do governo, a queda do dólar em relação ao real e a entrada intensa de fluxo de investimento internacional.

Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos, destaca que, assim como a guerra, os reflexos dos lockdowns que foram impostos na China também devem impactar o resultado de empresas.

Seguindo uma política “zero covid”, o país asiático anunciou rígidas restrições de circulação de pessoas e atividades em grandes cidades, como Xangai, para tentar conter o avanço da doença no país, agravando, por exemplo, a crise logística iniciada com a pandemia.

“O principal foco vai ser o impacto destas questões nos balanços. Será interessante ver como as empresas administraram isso e como estes fatores estão afetando o resultado delas de fato”, diz Akamine.

O que esperar dos diferentes setores

Confira quais são as perspectivas de analistas consultados pelo InvestNews para os principais setores da bolsa de valores na temporada de balanços do 1º trimestre:

Óleo e gás

Para Galindo, da Quantzed, este deve ser o setor a se destacar positivamente nos resultados do primeiro trimestre de 2022,  por causa do avanço do preço do petróleo no período.

“Devem vir bons resultados para  o setor na comparação anual, principalmente. Por outro lado, o dólar caiu, o que deu uma atrapalhada, mas, de longe, óleo e gás vai ser o setor de destaque da temporada”, diz ele.

Bancos

Para Galindo, a expectativa para os resultados dos bancos listados na bolsa de valores do Brasil é relativa, ou seja, dependerá mais especificamente da empresa do que do setor em si. Ele cita, por exemplo, a última divulgação de resultados, com o Bradesco (BBDC4) apresentando números muito abaixo do esperado, enquanto Itaú (ITUB4) surpreendeu positivamente.

Já Lima, da Top Gain, tem projeções positivas para o setor como um todo, devido à alta recorrente da taxa de juros do país, o que beneficia as instituições financeiras, podendo fazer com que elas reportem bons resultados.

Bruce Barbosa, sócio-fundador da Nord Research, destaca que, no caso das instituições digitais, o crescimento destas companhias pode ser um pouco menor do que estava se observando, devido a desempenhos mais fracos de algumas delas nos dois primeiros meses do ano. Mesmo assim, Barbosa acredita que elas vão conseguir entregar resultados positivos, puxados por uma boa captação.

Já em relação aos grandes bancos, Barbosa alerta que é preciso acompanhar a provisão para devedores duvidosos, o que, na avaliação dele, deve ser uma medida mais necessária neste ano.

Varejo

Para Galindo, as expectativa para os resultados de empresas do setor não são positivas, pois as companhias estão sendo afetadas pelos efeitos da alta dos juros e da inflação.

“A situação macroeconômica piorou bastante. É um trimestre para pagamento de impostos, material escolar, contas. O poder de compra vai lá para baixo e os preços subiram bastante. Então, empresas de varejo voltadas para o mercado interno de classe baixa devem ter os resultados, de certa forma, mais fracos”, avalia o head de análise fundamentalista da Quantzed.

Essa é também a expectativa de Bruce Barbosa, da Nord. Segundo ele, as empresas do mercado interno já estavam em uma sequência de resultados ruins e este cenário deve permanecer.

Jaconeli, da Nova Futura, explica que as companhias do setor, em sua grande maioria, já possuem margens espremidas e endividamento elevado, o que piora com o cenário atual. Adicionalmente, segundo o analista, a entrada de concorrentes como a Shopee também gera redução das receitas das empresas por conta da perda de participação de mercado.

O analista diz, no entanto, que as empresas com foco em consumo de luxo e supermercados podem continuar a ter bons números.

Shoppings

O head de análise fundamentalista da Quantzed avalia que melhoras pontuais estão sendo vistas trimestre a trimestre para empresas do setor, como nos números de ocupação e retomada do fluxo de consumidores.

“Se comparado o primeiro trimestre de 2022 com o de 2021, os resultados devem apresentar bons crescimentos, já que no ano passado ainda tinha a pandemia. Em relação ao 4º trimestre, pode ser ruim por causa da sazonalidade. Não sei se já veremos resultados em patamares iguais ou acima aos de 2019, mas em relação a 2021 devem ser bons, sim”, estima Galindo.

Mineração

Na expectativa de Galindo, os resultados de empresas do setor podem ser bons, mas ele alerta para o fator da sazonalidade, já que o período é marcado, por exemplo, por chuvas, que podem impactar as operações das companhias.

Saúde

Barbosa, da Nord, avalia que os resultados dependerão especificamente de cada empresa. Segundo ele, os laboratórios devem continuar tendo resultado um pouco maior que 10%, já os hospitais têm um crescimento mais baseado nas aquisições que vem fazendo e que, por isso, devem manter o crescimento que já tinham.

Já Jaconeli aponta que, com a melhora no cenário em relação à covid-19, a demanda por exames pode aumentar. Todavia, segundo ele, a inflação e os juros acabam afetando fortemente as margens do setor.

Educação

Barbosa avalia que o bom desempenho nos resultados das companhias do setor de educação depende do Produto Interno Bruto (PIB) do país. “A pessoa só vai procurar educação se tiver emprego, se ela conseguir pagar a mensalidade. Essas empresas ficarão ainda impactadas esse ano ou em boa parte desse ano”, considera ele.

Para Jaconeli, a reabertura da economia pode contribuir com as receitas do mercado, mas, possivelmente, não reverterá os custos das companhias do setor.