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‘Bolsa de valores das favelas’ completa 2 meses com R$ 500 mil captados

A “bolsa de valores das favelas” completou 2 meses com R$ 500 mil captados pela primeira empresa a fazer seu “IPO”. Por enquanto, investidores podem aportar dinheiro somente na Favela Brasil Xpress, única companhia listada na “nova bolsa”, mas a meta é de que 100 startups voltadas a serviços para comunidades também passem a receber investimentos.

Apesar de ter sido criada para atrair investimentos para empresas que atuem em comunidades, a “bolsa de valores das favelas” é aberta a todos os investidores. O funcionamento, no entanto, é diferente da bolsa de valores tradicional. A “bolsa das favelas”, na verdade, se assemelha mais a um modelo de crowdfunding (financiamento coletivo) em que o investidor recebe como rentabilidade um percentual das receitas da empresa. O investimento é considerado de risco.

Primeira empresa a fazer seu “IPO” na “bolsa das favelas”, a Favela Brasil Xpress é especializada no serviço de entregas nas comunidades. A empresa até agora captou R$ 500 mil, o que representa cerca de 38% do valor de R$ 1,3 milhão desejado.

“Se abrir o banco de dados, tem aportes de R$ 100 mi, R$ 50 mil, R$ 25 mil e de até R$ 10. Isso é o interessante, mistura os níveis de investidores e abre a oportunidade de moradores da comunidade apoiarem uma causa de uma empresa que usa no dia a dia”, diz Ricardo Wendel, CEO da DIV-hub, plataforma onde são realizados os investimentos e que tem a permissão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para atuar neste mercado.

Embora por enquanto haja apenas uma empresa listada, o idealizador da iniciativa conta que já existem mais startups a vista. Gilson Rodrigues, presidente do G10 Favelas, bloco que reúne as 10 maiores favelas do país, explica que, por enquanto, optou-se fazer o “IPO” de uma startup para se ter a primeira experiência, acompanhar, medir e observar o resultado. Mas, segundo ele, já são 500 as startups inscritas interessadas em fazer captação.

Apesar de ter sido criada em meio à pandemia, em um cenário de desemprego, inflação, taxas de juros e incertezas, o presidente do G10 Favelas considera que a “bolsa de valores da favela” surgiu em um bom momento. “Estamos vivendo três crises: econômica, política e sanitária. A melhor forma de ajudar o Brasil e as pessoas é colocando dinheiro no bolso, auxiliando elas a empreenderem, tendo acesso a crédito. Estamos criando alternativas para que elas sofram menos”, aponta o presidente do G10.

Rodrigues afirma que o projeto nasceu a partir de experiências vividas pelas comunidades que fazem parte do grupo, da necessidade de entender a sua própria economia e como alavancá-la.

“A partir desse processo e da divulgação de números econômicos sobre as favelas, percebemos que poderíamos empreender e ser agente desse processo de transformação. E a melhor forma de transformar a vida das pessoas é colocar dinheiro no bolso. Sem dinheiro no bolso, você não faz as coisas”, diz Rodrigues.

Como investir: negociação e rentabilidade

Para fazer parte da “bolsa de valores da favela”, Rodrigues explica que as startups interessadas precisam ter atividades voltadas às comunidades, possuir CNPJ e se cadastrarem para serem analisadas receitas, projeções, históricos, as possibilidades, receberem mentorias, e, identificado o potencial, elas serão direcionadas para captação e acompanhadas para seguir com a execução do plano traçado.

O investimento, aberto a qualquer interessado, acontece por meio da compra de cotas na plataforma DIV-hub pelo valor a partir de R$ 10, e o investidor é remunerado com uma porcentagem da receita da empresa por um período, tudo previamente acordado.

“Somos uma estrutura mais popular, pois, em outras plataformas, o nível de entrada é alto e corta grande parte de uma população que poderia se interessar por um investimento e não teria como fazer”, defende Ricardo Wendel, CEO da DIV-hub.

Wendel explica ainda que a plataforma não trabalha com equity, ou seja, o investidor não vai se tornar um sócio da empresa, mas sim comprar o direito de participar das receitas. Ele alerta que, caso a startup venha a quebrar, o investidor perde o dinheiro.

Segundo Wendel, a intenção é mapear bons negócios dentro das comunidades, fazer uma curadoria das empresas e lançar 100 startups na plataforma para captação, começando a partir do mês de março.

Veja abaixo as principais diferenças de investimentos na “bolsa de valores das favelas” e na B3:

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Democratização dos investimentos

O presidente do G10 Favelas explica que o projeto começou para criar um processo organizado, em que empreendedor apresenta a sua ideia, o seu plano de trabalho, quanto gostaria levantar em investimentos para a sua empresa e coloca à disposição de investidores que queiram aportar no negócio, sem ter a necessidade de sentar em uma mesa para negociação ou ficar dependente de investidor anjo.

“Fizemos um processo de regularização das rifas, como é muito comum acontecer entre as famílias para levantar dinheiro, e da democratização da bolsa de valores. Gostaríamos de estar na B3, mas ainda não temos recursos. É uma inovação, as empresas estão bastante empolgadas, temos uma fila de solicitação. As startups estão vendo com bons olhos”, afirma Rodrigues.

Gilson Oliveira, professor de finanças do Ibmec-RJ, explica que a bolsa de valores, tradicionalmente, é um ambiente limitado pelo fato de somente empresas de médio e grande porte terem acesso para captarem recursos.

“Eu acredito que esse projeto democratiza o mercado de capitais, ele democratiza startups a acessarem investidores sem intermediação financeira. O custo que essas pequenas empresas têm hoje ou teriam no mercado de crédito é muito elevado”, destaca Oliveira.

Mariana Gonzalez, especialista em mercado financeiro do ISAE Escola de Negócios, também analisa a iniciativa como positiva. Segundo ela, o ato de investir em uma empresa é mais do que buscar retorno, é acreditar e apoiar o crescimento dela.

“A criação de uma ‘bolsa de valores das favelas’ é um alto nível de democratização dos investimentos. É conectar o investidor a empresas e, ainda, sustentar a causa do desenvolvimento econômico das regiões mais carentes do nosso país”, considera Gonzalez. 

Por dentro dos números das favelas

O empreendedorismo é uma realidade nas favelas do Brasil. De acordo com dados do instituto de pesquisas Outdoor Social Inteligência levantados em 2021, dos mais de 289 mil comércios registrados em 6 mil comunidades de todo o país, 125 mil são provenientes do G10, o que corresponde a 43,5%.

O G10 é forma pelas seguintes comunidades Rocinha (RJ), Rio das Pedras (RJ), Heliópolis (SP), Paraisópolis (SP), Cidade de Deus (AM), Baixadas da Condor (PA), Baixadas da Estrada Nova Jurunas (PA), Casa Amarela (PE), Coroadinho (MA) e Sol Nascente (DF), com pessoas com renda média de R$ 2.787,55 e potencial de consumo R$ 9,9 bilhões, segundo o Outdoor Social Inteligência.

Para Emília Rabello, fundadora do instituto de pesquisas, movimentar a economia local e trazer a visibilidade para a potência das favelas é o que falta para a transformação das comunidades e do país.

“Temos uma enorme engrenagem capaz de se manter localmente e fazer todo o território caminhar rumo à evolução econômica. São empreendimentos sólidos, que se mantiveram na crise, resistiram ao lockdown e estão mais do que aptos a alcançarem altos níveis na curva crescente de faturamento”, destaca a especialista.

Ainda de acordo com pesquisa liderada pelo Outdoor Social Inteligência, apesar das diminuições no faturamento de mais de 75% dos negócios por conta da pandemia da covid-19, os empreendedores locais mantiveram o emprego dos funcionários. Segundo o estudo, 89% dos entrevistados não demitiram em 2020 e, este ano, o percentual ficou em 80%. De todos os empreendimentos consultados, 24% correspondem a CNPJ ativos há mais de 10 anos, 30% com 5 a 10 anos de atuação e 45% são novos empreendedores, com menos de 5 anos de atividade.

O presidente do G10 explica que a favela tem sido bloqueada pelo CEP, com entregas não chegam, além da falta de luz, água e outros problemas.

“Estamos fazendo um processo de democratização da vida, abrindo a favela para o mundo e mostrando que existem 14 milhões de brasileiros que consomem, que são gente como a gente. Estamos criado soluções para que possamos reduzir nossos problemas”, destaca Rodrigues.

Riscos do investimento

Gilson Rodrigues, presidente do G10, lembra, no entanto, que o risco neste investimento existe, assim como acontece com as empresas que fazem parte da bolsa de valores brasileira. “Tentamos minimizar riscos dando mentoria e acompanhamento as startups. Tentamos também juntar empresas grandes com pequenos. A Favela Brasil Express, por exemplo, se conectou com a Americanas (LAME3 e LAME4). São grandes empresas que participam desse processo e tentam diminuir o risco”, afirma.

Segundo os especialistas ouvidos pelo InvestNews, a “bolsa de valores das favelas” trata-se de um investimento de alto risco.

Mariana Gonzalez, especialista em mercado financeiro do ISAE Escola de Negócios, aponta que investimentos em startups são extremamente arrojados, pois elas possuem baixo índice de sobrevivência. Segundo Gonzalez, cerca de 80% das startups quebram nos primeiros anos. Além disso, a especialista destaca que são startups em um contexto de incertezas, que é o das favelas. 

Ela ponta como os principais riscos mapeados:

  • Viabilidade do projeto ou negócio: muitas vezes, uma boa ideia não dá certo por não ser bem executada ou ter um equívoco na leitura do público-alvo; 
  • De mercado: crises econômicas que impactam diretamente a empregabilidade da população concentrada nessas regiões; 
  • De gestão ou operação dessas empresas: em referência aos gestores e fundadores, se possuem preparo e experiência para tornarem o negócio rentável, ou não.

“Em resumo, o negócio tem que ser viável, tem que ter uma gestão preparada e a economia precisa ajudar. Devemos ressaltar que essas empresas podem quebrar e o investidor pode não ter de volta o valor investido”, alerta Gonzalez.

Gilson Oliveira, professor de Finanças do  Ibmec/RJ, lembra que a favela é um mercado desconhecido, mas que, na avaliação dele, startup é isso, busca o desconhecido, tem inovação, tem componente digital importante e explora o que não existe. “É aí que está o potencial. A empresa que está na comunidade sabe as necessidades da favela, conhece bem seu cliente”, diz.

Ele aponta, no entanto, que esse risco pode ser diminuído se o investidor fizer aportes distribuídos em mais de um projeto. Essa seria uma forma de diluir risco, com perspectiva de retorno elevado. Outro ponto que o professor destaca é o fato de ser um mercado autorizado e regulado pela CVM, ou seja, tem segurança regulatória.

Vantagens do investimento

Apesar do alto risco, Gonzalez aponta que, por ser um tipo diferente de investimento, existem vantagens. Entre as principais apontadas estão:

  • a plataforma utilizada é de fácil usabilidade e acompanhamento;
  • o valor do investimento inicial é baixo;
  • é possível investir em diferentes projetos simultaneamente, podendo construir uma carteira com empresas de diversos segmentos.

A especialista acrescenta que os empreendedores devem ser diligentes no uso destes recursos e ter transparência com o seu investidor, que espera receber um retorno em troca da confiança.

Já Oliveira, do Ibmec-RJ, aponta como vantagem neste investimento o fato de o investidor não entrar como sócio da empresa, podendo sofrer com consequências relacionadas como recuperação judicial e dívidas trabalhistas, por exemplo.

Outro ponto é o fato de os rendimentos irem pra uma Sociedade de Propósito Específico (SEP), e ela faz o repasse aos investidores. Além disso, são negócios em que os empresários conhecem a necessidade e público-alvo para atuar.

“Não tem o risco do negócio, o investidor só participa dos rendimentos. O risco é de o rendimento ser baixo, e ter expectativa de retorno diluída por mais tempo que deveria”, ressalta Oliveira.

O professor do Ibmec lembra ainda que o investidor consegue ver o resultado na prática, com o dinheiro dando retorno às famílias e sociedade, e não só o retorno do investimento que fez.

Os especialistas alertam, no entanto:

  • o investidor deve procurar empresas com gestores e fundadores capacitados em tocar o negócio;
  • o setor de atuação deve ser promissor;
  • é preciso observar a saúde financeira dessas empresas;
  • buscar projetos de setores diferentes pode diluir o risco do investimento;
  • é preciso analisar a plataforma que está sendo utilizada;
  • vale lembrar que não se tem liquidez neste investimento para saída do negócio.

Impactos positivos

Gilson Rodrigues explica que “investimento” ainda é um assunto muito novo nas comunidades e que, aos poucos, os moradores estão passando a se familiarizar e entender melhor, pois o tema está sendo mais comentado.

“É um assunto muito novo, as pessoas ficam, no mínimo, curiosas, pois parece distante, mas não é. Elas poderiam estar investindo na B3, mas não sabem como e não têm a política de aproximação. Então, estamos fazendo a aproximação”, afirma o presidente do G10.

Para ele, o que falta para a transformação econômica das comunidades são oportunidades, acesso ao crédito, formação, conexão, além da necessidade de quebrar preconceitos.

“Não podemos fazer com que os problemas sejam viralizados a ponto de uma empresa não chegar na favela. A maior forma de combater a insegurança presente na cabeça das pessoas e empresa é trazendo convivência. Estamos criando um novo olhar. Existe mercado, potencial e muita coisa  mudou. Tem um grande potencial de contribuição. São 14 milhões de favelados”, aponta Rodrigues.

Gonzalez explica que muitas dessas empresas das favelas não têm acesso a linhas de crédito ou, as que possuem, tendem a ser muito limitadas e que, por isso, a “bolsa de valores das favelas” abre uma nova era em esses negócios terão acesso a investidores, a apoiadores do seu negócio, que acreditam no sucesso e estão dispostos a alocar seu dinheiro. 

“Essa oportunidade deve ser usada para impulsionar seus negócios e preencher lacunas em que, sem recursos disponíveis, a realização de próximos passos seria muito árdua ou lenta. O empreendedor, com recurso na mão, poderá otimizar seus processos, expandir, contratar, barganhar com fornecedores etc. Por consequência, exigirá um nível mais alto de organização e governança destas empresas, sendo forçadas a evoluírem para que possam dar todos estes passos”, acredita a especialista em mercado financeiro do ISAE Escola de Negócios.

Gonzalez destaca ainda que, por ser uma forma de democratizar o acesso para que qualquer pessoa interessada torne-se um investidor, abrem-se portas para aqueles que nunca investiram antes, seja por medo, desconhecimento ou mesmo falta de recursos. 

“Por mais que sejam investimentos de alto risco, os valores mínimos são baixos, e trazem uma alternativa acessível para aqueles que hoje, se o fazem, apenas poupam das formas mais básicas ou simples disponíveis. E esta experimentação pode trazer aprendizados tanto sobre finanças pessoais, mercado financeiro e até mesmo negócios em um geral. Afinal, não importa quem seja este investidor. Ele, eventualmente, poderá estar avaliando estas empresas de forma mais organizada para tomar decisões de onde colocar seus recursos”, diz a especialista.

Oliveira, do Ibmec, destaca que a iniciativa, para moradores das comunidades, é uma forma de investir e ter retorno duplo, que reflete na vida das pessoas. “Ele vai ter a oportunidade de treinamento na prática. Em vez de fazer curso para investir na B3, ali, ele tem na prática investimento com foco no retorno. Tem retorno com a prestação de benefícios para a comunidade e tem aprendizado de onde os recursos estão sendo investidos e de que forma ocorrem”, avalia o professor.

Expectativas

Gonzalez avalia que o momento é muito propício para essa iniciativa e que, se as empresas envolvidas levarem a sério e estiverem comprometidas com o sucesso dos negócios, o modelo pode se tornar muito grandioso.

“É só vermos o quanto está sendo falado sobre o ESG (social, meio-ambiente e governança) nas grandes empresas. As pessoas estão muito abertas e com vontade de investir e apoiar empresas com o propósito voltado para o bem da comunidade. Esse tipo de empreitada tem muitos elementos para ser bem-sucedido. Será muito interessante vermos, com o tempo, o histórico de retorno gerado por estes investimentos”, considera a especialista do ISAE.

Olveira destaca que é algo embrionário e, como tudo que é novo, vai depender do sucesso dos atuais projetos, mas acredita no potencial da iniciativa.

“O projeto está bem desenhado. O futuro vai depender dos projetos. O G10 tem uma responsabilidade muito grande de fazer isso dar certo. Para o mercado de capitais, isso é fantástico, ele democratiza. É claro que o risco é mais elevado, só que risco e retorno andam juntos o tempo todo. Tem risco maior, mas expectativa de retorno elevada. Por isso, o importante é diversificar, escolher vários projetos e colocar apenas parte do portfólio neste segmento”, recomenda o professor do Ibmec.

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