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Ações de commodities e bancos voltarão a ganhar força nas eleições de 2022

Nos anos das últimas cinco eleições presidenciais no Brasil, as 10 ações mais negociadas do Ibovespa se concentraram majoritariamente em empresas dos setores de commodities e financeiro, mostra um levantamento do InvestNews, a partir de dados da provedora de informações financeiras Economatica. Apesar de 2022 ser atípico, com impactos trazidos pela pandemia, especialistas avaliam que os setores que se destacaram entre os mais negociados em anos eleitorais anteriores devem continuar no radar dos investidores.

Bráulio Langer, analista da Toro Investimentos, lembra que ano eleitoral, historicamente, traz receios relacionados à imprevisibilidade política, fiscal e monetária. Segundo ele, nos últimos anos, novas estruturas, como a independência do Banco Central e o teto de gastos, ajudaram a reduzir um pouco esse tipo de receio, mas, ainda assim, a imprevisibilidade gera temor para os investidores neste período.

Neste cenário, Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, explica que, em anos de eleição presidencial, os investidores buscam setores mais defensivos, o que, para o contexto brasileiro, sugere alocações em ações de setores consolidados, como bancos (com menor exposição ao ciclo econômico doméstico), como as siderúrgicas (pois estão mais ligadas ao crescimento chinês), e que se beneficiam do dólar, e como as exportadoras de commodities.

Anos eleitorais: setores mais negociados

Segundo dados da Economatica, as ações de Vale (VALE3), Petrobras (PETR3, PETR4), Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4), B3 (B3SA3) e Usiminas (USIM5), por exemplo, aparecem entre os 10 papéis mais negociados nos últimos cinco anos de eleições no país, ou seja, predominando as negociações de papéis dos setores de commodities e financeiro. Confira:

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Rodrigo Crespi, analista da Guide Investimentos, afirma que, em ano de eleição, tendem a acontecer possíveis medidas mais populistas, sempre causando mais turbulência no mercado financeiro, por causa de incertezas geradas pelas promessas eleitorais, levando investidores a buscar os setores mais resilientes neste cenário.

Langer explica que o setor financeiro, historicamente, se mostrou resiliente em momentos de incertezas, por ter operações robustas e conseguir repassar e eventualmente até aumentar suas margens em ciclos de altas de juros.

Já as empresas ligadas à exportação de commodities, segundo o analista da Toro Investimentos, por terem uma diversidade geográfica relevante, não dependendo tanto do mercado interno, e receitas em dólar acabam sendo uma das principais alternativas para investidores que temem que, por conta da incerteza política, o real possa continuar a se desvalorizar frente ao dólar.

Langer avalia que as ações desses setores, historicamente, funcionam como uma espécie de “porto seguro”, já que tendem a ter uma boa performance mesmo em um cenário econômico e político desafiador. E este cenário, segundo ele, deve se repetir em 2022.

“Neste sentido, ao se posicionar nestes papéis e setores, o investidor se prepara para possíveis turbulências, trazendo algum nível de equilíbrio para sua carteira, já que há a piora do cenário interno. Além disso, a deterioração das expectativas do mercado frente às eleições tende a gerar uma maior procura por esses papéis que possuem um bom histórico neste momentos, o que também contribui para sua boa performance ao longo do ano”, destaca o analista da Toro Investimentos.

O analista da Guide Investimentos também considera que, em 2022, o cenário de ações mais negociadas do Ibovespa pode se concentrar nos mesmos setores de anos eleitorais anteriores.

De acordo com Crespi, no entanto, após o período eleitoral, o mercado aumenta seu apetite ao risco e procura teses mais de crescimento, como de varejo com viés de tecnologia.

Rodrigo Moliterno, head de renda varíavel da Veedha Investimentos, destaca que, além de empresas que são mais dependentes da economia do país sofrerem mais em ano de eleição do que as que têm correlação com exterior, a bolsa de valores brasileira deve se beneficiar dessa conjuntura, pois é composta por um grande volume de empresas do setor de commodities.

Moliterno avalia, no entanto, que ainda é cedo e que a questão da corrida eleitoral vai tomar seu corpo no segundo semestre. O assunto, segundo ele, está mais “fazendo barulho” do que preço nas ações.

“O mercado no final do ano passado acabou antecipando muita coisa de ruim, como questão fiscal, aumento de juros, a entrada de Lula na disputa. Mas os setores financeiro, de commodities e de siderúrgicas podem ser um porto seguro para o investidor. Indiferente de quem vai sair vencedor das eleições, esses setores serão vencedores e os que atrairão mais atenção do investidor estrangeiro também, por terem mais correlação com o exterior”, acredita Moliterno.

Já Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, alerta que, apesar de certa semelhança em termos de viés econômico populista, os dois candidatos que lideram a corrida, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, têm visões de desenvolvimento econômico bem distintas, com Bolsonaro seguindo uma agenda mais ligada à desregulamentação do setor privado, enquanto Lula dá indícios de que buscará o retorno do Estado indutor de crescimento, com grandes chances de reverter as reformas dos últimos anos, em sua visão.

“Além disso, o clima de polarização política e as tensões em torno da aceitação do processo eleitoral por parte de Bolsonaro devem elevar ainda mais a cautela dos investidores, o que deve impulsionar as alocações em ativos mais defensivos na bolsa”, aponta Borsoi.

Pandemia pode mudar o desempenho da bolsa?

As eleições de 2022 acontecerão em meio a mais um cenário de incerteza: os reflexos trazidos pela pandemia de covid-19. Os analistas ouvidos pelo InvestNews avaliam, no entanto, que este fator não deve trazer impactos para a conjuntura de ano eleitoral.

“A pandemia acrescenta alguns fatores de risco para os investidores, principalmente relacionados às novas variantes e possíveis novas restrições ao comércio. Neste sentido, as varejistas acabam estando mais expostas a estes riscos. Fora isso, não acreditamos que o roteiro eleitoral vai ter maiores impactos por esta questão”, diz Langer.

Crespi acrescenta que as eleições devem ter um potencial contra câmbio e juros menor, visto que já tem causado bastante dano neste dois fatores, como risco fiscal, que aumentou a aversão ao risco do investidor com foco no Brasil. “Portanto, acho que o principal balizador esse ano é mais ainda o que o Federal Reserve deve fazer. Isso pode pressionar tanto juros como câmbio por aqui”, diz o analista da Guide Investimentos.

Borsoi destaca que a parte negativa da pandemia já foi incorporada aos preços e que agora está em curso a fase em que a reabertura/fim das restrições deve impulsionar os setores que mais sofreram com a pandemia, como as empresas de serviços.

“Na contramão, setores que se beneficiaram da pandemia, como tecnologia e industriais, tendem a ser vendidos. Quanto aos setores financeiro e exportadores de commodities, a reabertura mais intensa da economia pode resultar em recuperação mais robusto do mercado de trabalho, diminuindo os receios com relação à inadimplência. Para os outros setores, a pandemia tende a ter menos efeito”, considera Borsoi.

Setores da bolsa mais seguros para 2022

Bancos e empresas de commodities são as escolhas preferidas de Langer para uma maior proteção e equilíbrio da carteira de investimentos em 2022. Ele sugere que os investidores mais avessos ao risco, e que ao mesmo tempo querem continuar tendo uma forte exposição à renda variável, devam aumentar sua posição nestes papéis, enquanto os mais arrojados poderão buscar setores com maior volatilidade e possibilidade de valorização, dependendo do cenário.

Já Borsoi avalia que, na questão do posicionamento, o mais relevante agora é definir qual porção do patrimônio destinar para a bolsa. “2022 não será um ano fácil, tanto pela questão eleitoral, quanto pela retirada de estímulos no exterior. Não parece um mix atrativo para renda variável. A estratégia ideal é a halter (barbel), em que se adota uma posição majoritária em setores defensivos, mas uma parte da carteira é alocada em ativos com grandes descontos”, diz o economista-chefe da Nova Futura Investimentos.

Bolsa barata em ano eleitoral?

Bráulio Langer, analista de investimentos da Toro Investimentos, considera que a bolsa está barata e que, em 2022, existem boas oportunidades para os investidores, mesmo sendo ano eleitoral.

“Empresas e setores que sofreram bastante nos últimos meses com a piora das expectativas para 2022, como varejo e construção civil, podem ter uma excelente performance no caso de melhora nas projeções de inflação, juros e crescimento. Além disso, o mercado já espera e precifica uma eleição turbulenta, e qualquer possibilidade de uma maior estabilidade ao longo do ano pode destravar valor para estes setores”, considera Langer.

O analista destaca, no entanto, a inflação elevada  como ponto de atenção. Segundo ele, a principal preocupação é que ela não desacelere ou que o nível de juros que consiga conter a inflação seja superior ao estimado atualmente. Assim, avalia Langer, neste cenário, haveria uma grande desaceleração da economia global, com sérios impactos no Brasil.

Com isso, o analista de investimentos da Toro Investimentos recomenda que, dadas as possibilidades, o investidor deve se posicionar com um bom nível de diversificação e sempre de acordo com seu perfil de aversão a risco.

Já para Moliterno, o setor de saúde está barato e é uma oportunidade para os investidores, mas ele alerta para questões que impactam seu crescimento, como juros altos e inflação.

“É um setor muito bom, ainda mais que passamos por pandemia e as pessoas vão dar uma atenção maior para a saúde e começar a investir mais. Ele ainda tem muito para desenvolver. O setor de shopping também ficou bem depreciado. Vai depender de melhora da situação econômica do país. Tem grandes setores com espaço para melhorar, dado que ficaram atrasados e depreciados”, diz o head de renda variável da Veedha Investimentos.

Crespi alerta que o cenário de eleição é bem incerto no país e que só a partir de abril ou maio haverá um horizonte mais claro. “Até lá, vamos ver bastante volatilidade, o que é difícil prever ou estimar algum cenário. Por isso, eu prefiro ir em teses de valor que dependem menos de uma atividade doméstica e o menos possível correlata às eleições no Brasil”, pontua o analista da Guide Investimentos.

Impactos com possível mudança de cenário

Langer afirma que o mercado financeiro é bastante eficiente em precificar riscos que podem ocorrer ao longo do ano. Neste sentido, segundo ele, o atual patamar da bolsa brasileira já está correspondendo a estes temores.

“Uma mudança de cenário, a meu ver, tende a ser positiva, com o “pior cenário” não se confirmando, o processo eleitoral ocorrendo de maneira mais ou menos estável, o que pode se confirmar se as pesquisas continuarem a identificar um candidato com uma margem muito superior ao segundo colocado, como estamos vendo atualmente”, diz o analista da Toro Investimentos.

Além disso, segundo Langer, é importante ter atenção ao risco de rompimento institucional, a partir do posicionamento dos candidatos, mas ele diz acreditar que, para além de uma volatilidade de curto prazo, o cenário institucional brasileiro pode se manter relativamente estável e operacional, mesmo com candidatos questionando certas instituições, como visto no ano passado.

Moliterno defende que, por enquanto, os dois possíveis principais candidatos à presidência do país já são conhecido e que, por isso, não há nada de novo ou medo, como observado em 2002, a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

“Lá, sim, tinha o desconhecido, mas vimos que não mudou nada. Troca um, troca outro, o Brasil segue na mesma toada. Já estamos acostumados e vai seguir a mesma coisa em 2022”, acredita Moliterno.

Pontos de atenção

O analista da Guide Investimentos, Rodrigo Crespi, considera que o cenário até maio vai continuar bastante obscuro. E que, por isso, a relação risco e retorno na bolsa de valores está interessante, a depender do setor.

“O mais importante é a diversificação, nunca estar 100% alocado em Brasil, principalmente em bolsa. A diversificação de classe de ativo e região geográfica sempre deve prevalecer no portfólio do investidor. Isso é mais importante no cenário de incerteza. É a palavra-chave para esse ano”, sugere Crespi.

Langer recomenda que o investidor tenha resiliência e controle emocional ao longo do ano, filtrando bem as notícias e evitando movimentos de pânico exagerados por notícias com impacto de curto prazo.

“Acreditamos que uma visão de médio/longo prazo poderá ser muito benéfica para os investidores ao longo do ano, que poderão aproveitar as volatilidades de curto prazo para adquirir papéis de boas empresas a um preço atrativo”, diz o analista de investimentos da Toro Investimentos.

Já Moliterno alerta que o investidor deve buscar empresas sólidas e fazer análises de seus fundamentos. “Se ela tem bons fundamentos, com certeza terá bons retornos ao longo do tempo”, conclui o head de renda variável da Veedha Investimentos.

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